Pesquise, descubra, enriqueça

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

AFA


A rede de fofocas existe em todas as empresas de que se tem conhecimento. Na maioria dos lugares ela é chamada de Rádio Peão. Não se sabe exatamente como ela surgiu. Mas tenho a impressão que existe desde que mundo é mundo. Ou seria desde empresa é empresa?

Enfim, origens a parte, no mundo da aviação não seria diferente. Eu trabalhei em apenas duas empresas antes de entrar para essa vida. E é claro que a rádio peão corria solta. Mas tenho a sensação de que nada se compara a mega complexa rede de fofocas do mundo da aviação. Aqui chamamos ela de AFA - Associação dos Fofoqueiros da Aviação.

Ainda no meu curso de comissário, já havia ouvido falar da AFA. Desde os primórdios da VARIG ela já estava lá firme e forte. Ninguém consegue saber ao certo quando a AFA começa, da onde ela vem ou quem começa a contar a primeira. Mas todos sabem que o poder de disseminação é devastador, para o bem ou para mal. E todos já podem imaginar que é mais para o mal, é claro. Não se tem muitas notícias de fofocas do bem.

Fico impressionado como as AFAs se espalham rapidamente. A minha surpresa vem do fato de sermos em torno de 7 mil na empresa e trabalharmos sempre com pessoas que não conhecemos muito bem. Ou seja, é muita gente e muitos desconhecidos. Como pode? rs

Me desculpem as meninas que estarão lendo este texto agora mas a grande maioria de mulheres na profissão só torna a AFA ainda mais colossal. rs E tenho certeza que todas concordarão comigo. As mulheres tem tendência a gostar de falar da vida das outras com mais frequência do que nós, homens.

Durante o voo, você sempre ouvirá comentários do tipo:

- Você sabe quem caiu na AFA? Fulano.
- Vocês estão sabendo o que ciclano fez durante o voo?
- Você não acredita no que eu ouvi de uma comissária no meu último voo.
- Sabe qual turma já está na AFA?
- Hum, também já ouvi esta história.
- Já ouvi falar desta AFA, conta mais.

E por aí vai....E as AFAs iniciam um processo de contágio em todos os voos. E de repente, não mais que de repente, como diz Vinicius de Moraes, todo mundo fica sabendo de tudo o que acontece nos voos. É chocante a rapidez.

É imprescindível ter cuidado com tudo o que você fará ou falará durante os voos. Desde o inicio deste blog eu digo que discrição é fundamental. E durante o voo este conselho só se faz confirmar. Tudo o que você faz pode se voltar contra você em uma AFA.

E quando a AFA começa a se alastrar, ela pode vir com detalhes sórdidos ou apenas pontos vagos. Algumas por exemplo vem com nome, sobrenome e voo. Outras apenas do fulano da turma tal. Mas como a AFA se espalha veloz, muitas vezes acaba se tornando um telefone sem fio. E nós sabemos que quando brincávamos de telefone sem fio, o comentário chegava na outra ponta completamente distorcido.

Não vejo o fim da AFA no futuro. Ela sempre irá nos atormentar ou mesmo nos divertir durante os voos. É uma característica entranha do nosso meio.

Para fugir de uma AFA, apenas seja discreto. Para ajudar a reter uma AFA, apenas jogue uma pedra no que você ouviu e não passe para frente - mesmo sendo quase impossível. rs Você vai querer contar para seu amigo, que também tem um amigo que vai contar para outro amigo....e tá feita mais uma corrente da rede.

domingo, 13 de novembro de 2011

PERCEPÇÕES DE VOO - RELACIONAMENTOS



A pergunta que nunca se cala: É possível namorar enquanto se voa?

Quando eu entrei na aviação pensava que encontraria um mar de solteiros. Como era possível manter um relacionamento praticamente a distancia? Era como namorar artistas de circo itinerantes.

Desde o meu primeiro voo, tenho conversado muito sobre isso com colegas de trabalho. Não tenho muita experiência neste quesito. rs Mas posso contar um pouco sobre as conclusões que eu tirei a partir das minhas percepções.

Nem quando eu trabalhei em hotelaria eu vi tanta gente casada e em relacionamento sério como na aviação. É muita gente casada, com filhos e namorando sério. É fácil então chegar a conclusão de que é possível sim. Posso desmembrar mais essa conclusão....

Das pessoas casadas pude ouvir sobre como adaptar uma relação neste mundo louco da aviação. Elas buscam todas as maneiras possíveis para ver seus cônjuges. Se utilizam de folgas e escalas dirigidas. Quando os dois são da aviação, procuram solicitar folgas casadas. Para os maridos é muito mais difícil entender a vida de uma comissária. É sempre muito pior para quem fica em casa esperando. Mas quando tem amor, esse obstáculo é derrubado facilmente. Vejo muita troca entre os casados. Um ajudando o outro a cuidar da casa. Um ajudando o outro a cozinhar. Acho que é assim que tem que ser.

E quando se tem filhos? Aconselho ir no blog da Lúcia ( http://noarr.blogspot.com/) . Ela foi comissária da VARIG, é instrutora, psicóloga e foi minha professora da escola de aviação. Ela é uma enciclopédia viva do mundo da aviação. Ela escreveu um texto incrível sobre como criar filhos neste mundo.

De quem namora, ouço muitas histórias de desentendimentos e discussões. Principalmente vindas da parte de quem fica em casa. É realmente complicado saber que a namorada estará viajando por aí e que ela ficará rodeada de pilotos tentando cortejá-las. Sim! Muitos pilotos se "engraçam" para as comissárias! É mais comum do que se pensa. Normalmente as comprometidas nem ligam e fingem que não vêem. Outras acabam cedendo - acontece. Como também é difícil para as mulheres saberem que seus namorados estão cercados de comissárias lindas e solteiras. E para os homens que namoram homens é tão complicado quanto - afinal de contas muitos comissários são gays.
Chego mais uma vez ao clichê dos relacionamentos: Quando se tem confiança é possível. Namoros firmes existem mesmo quando eles acontecem no centro do olho do furacão - vulgo aviação.

Percebi que a busca por relacionamentos maduros e estáveis é a maior busca dos tripulantes. Talvez seja para tentar, ao menos em uma parte, ter uma vida de uma pessoa normal. rs

Creio que como em qualquer relacionamento, não pode faltar respeito e confiança. Vejo muitos tripulantes em relacionamentos super estáveis. Casais comprando apartamentos, montando festas de noivado, ou então famílias lindas e fortes. É bom de ver. É bom saber que é possível.

Entretanto não posso dizer que o mundo da aviação é puro e casto. É claro que muita coisa acontece por trás dos panos, atrás das coxias e nos quartos dos hotéis espalhados por esse mundão. Mas aí eu dou uma de macaco cego, surdo e mudo. Não vejo nada e nunca sei de nada. Evito iniciar e entrar em AFAS.

Próximo post: AFA (Associação dos Fofoqueiros da Aviação)

sábado, 5 de novembro de 2011

ESCALA DIRIGIDA


A base da minha empresa fica em São Paulo. Logo todos os meus vôos se iniciam e terminam lá. E por isso também tenho um canto para ficar na terra da garoa - um canto onde deixo minhas coisas, onde cumpro sobreavisos, me preparo para vôos de madrugada e durmo quando chego muito tarde .

Como é de conhecimento da maioria, muitos comissários não são originalmente de Sampa. E todos nós de fora, ou pelo menos a maioria, fazemos de tudo para sempre voltar para a cidade natal. Buscamos algumas opções que a empresa nos fornece. Uma delas, e que já escrevi sobre, é o passe. Com eles nós voltamos para casa nas nossas folgas e curtimos um pouco as origens.

Outra solução para conseguir voltar mais para casa é a escala dirigida. Podemos assinar um termo de solicitação para que, sempre que possível, tenhamos pernoites nas nossas cidades - se a empresa voar para este destino, é claro. Neste termo de solicitação também abrimos mão de utilizar o hotel que a empresa disponibiliza - porque fica entendido que estou indo para a minha casa; logo não preciso de acomodação.

A minha escala dirigida para o Rio de Janeiro tem funcionado. Tenho conseguido bons vôos. Afinal de contas o Aeroporto do Galeão é o principal Hub da minha empresa, juntamente com o aeroporto de Brasilia. (Ou seja, do Galeao saem vôos para todo o país)

Para mim, ter escala dirigida para o Rio é poder marcar consultas dentárias e médicas com mais facilidade, é poder dormir mais vezes na minha cama, ver mais meus amigos e família, arrumar a casa que sempre fica bagunçada e também resolver pendengas da vida adulta. Como a aviação é uma eterna metamorfose que sofre interferências de muitos meios, nem sempre as coisas acontecem como eu espero. Acontece de o vôo mudar interinho e eu acabo perdendo alguns pernoites em casa - aí tem que preparar o telefone para desmarcar os compromissos. Mas isso não há como mudar - a vida do comissário é cheia de surpresas, sejam elas bem vindas ou não.

Pensando de uma forma mais lírica, ter este tipo de escala me proporciona uma sensação única: a de ter uma vida parecida com as das pessoas normais - daquelas que saem do trabalho e vão para casa. É bom poder conciliar a loucura dos deslocamentos e hotéis espalhados pelo Brasil com a normalidade de dormir em casa depois de um dia típico de trabalho. rs

sábado, 22 de outubro de 2011

COM QUEM VOU TRABALHAR? - AH, PRAZER. FILIPE, COMISSÁRIO DO VÔO.


Ser comissário é trabalhar praticamente o tempo todo com pessoas que você acabou de conhecer. É chegar no DO e literalmente fazer o "cara-crachá" para procurar quem serão seus colegas de trabalho nos próximos dias. Parece muito estranho isso, né? E vou ser sincero: É estranho mesmo! rs

No início, quando comecei a voar, tinha uma vergonha imensa de entrar no DO, sempre lotado de tripulantes. E mais vergonha ainda para procurar a tripulação! Dava um nervoso! Com o tempo, a casca vai ficando grossa e você não tem mais temor ou nervosismo. Fica até banal!

Quando você faz um vôo com uma tripulação que você não se identifica ou com aquele auxiliar que você julga mala, é ótimo saber que daqui a dois ou três dias você se despedirá e provavelmente não voará com eles tão cedo. Ufa!

Agora quando a equipe é incrível e divertida, é triste ter que admitir que daqui a dois ou três dias você terá que se despedir e provavelmente não voará com eles tão cedo. Droga!

Conforme os dias de vôo passam, mais você convive com aquelas pessoas desconhecidas. Principalmente em vôos longos, não há muito o que conversar a não ser sobre a vida ou sobre aviação. Aí de repente você percebe que está falando muitas coisas da sua vida pessoal para uma pessoa que praticamente você acabou de conhecer! É muito esquisito!

Primeiro, me sentia mal por ter falado tanto de minha vida para um ou outro colega. Mas hoje chego a conclusão que, como comissários, adquirimos sensibilidade e habilidade para identificar em tempo recorde pessoas com caráter e pessoas confiáveis. O comissário também adquiri a capacidade de fazer amizades com a velocidade de um jato.

Percebo também que é fundamental, de certa forma, criar laços com um ou outro da tripulação para que o vôo fique com uma cara mais familiar. Eu gosto dessa sensação. Nem sempre acontece, aí é um tédio! Mas normalmente tem sempre um tripulante com quem você se identifica mais. E essa será aquela pessoa que conversará com você na galley, que irá tomar sorvete com você na orla, tomará café da manhã junto ou dará uma corrida no parque com você.

Mais incrível ainda é quando você descobre que tem muitas coisas em comum com aquela pessoa e que pode trocar experiências de vida incríveis e informações preciosas. E mais que perfeito é quando você percebe o quão especial aquela pessoa é, e como foi surpreendente como vocês se tornaram amigos tão rapidamente. É duro ter que se despedir do vôo depois de conhecer alguém tão legal.

Às vezes curtos, às vezes fugazes, às vezes incríveis, às vezes eternos...os laços que a aviação me proporciona também são essenciais para meu crescimento!

domingo, 25 de setembro de 2011

THE SHOW MUST GO ON, ALWAYS!


No topo da página, onde se encontra o título do blog, eu digo que isso aqui é um diário de bordo. Mas normalmente os posts acabam sendo muito informativos. O que é muito bom também.
O que eu vou escrever hoje é o que mais se aproxima do que chamamos de diário de bordo mesmo.

Viver a vida louca que tenho não é fácil. Moro em duas cidades. Tenho obrigações nas duas, muitas coisas para resolver em ambas. E no meio disso têm os vários vôos que tenho que fazer. Nem sempre dá para resolver todas as pendengas. As vezes o que tenho que trazer para o Rio fica em São Paulo ou vice-versa. É tudo muito confuso.

E nessas poucas brechas que tenho, ainda tenho que visitar a família e ver amigos - o que é fundamental. Passo muito tempo com pessoas que acabei de conhecer - voltar pra casa é ter a chance de desabafar, sair para dançar, ou seja, receber doses de atenção de quem me conhece muito bem.

Aí pega isso tudo e encaixa na escala que tenho! Imagina! Não sobra muito tempo. Às vezes nem para dormir o quanto você queria. De vez em quando eu consigo dormir mais e melhor nos pernoites do que em casa.

Falando em pernoites, esses são algumas vezes entediantes. E isso traz a tona um dos lados negativos mais característicos da profissão: Solidão. Não há comissário que não tenha sentido ao menos uma vez solidão. Alguns não aguentam e acabam tendo síndrome do pânico. A solução para a solidão pode ser uma boa leitura, uma ligação, um chat ou um passeio com a tripulação. Se o grupo não estiver entrosado, aí o negócio todo fica complicado. rs

No meio desta vida turbulenta, se alguma coisa dá errado como por exemplo um problema pessoal que ficou por resolver no Rio ou alguma conta que eu esqueci de pagar, fica difícil se concentrar no trabalho como eu quero. Mas não há muito o que fazer. The show must go on. Eu tenho que me entregar e esquecer um pouco que tenho problemas do lado de fora do avião. Pode até ser que o trabalho ajude a desobstruir meus pensamentos negativos.

Vejo o trabalho do comissário como uma apresentação de atletas de nado sincronizado. Ao olhar dos espectadores, elas devem sempre estar sorrindo e mostrando graciosidade. Entretanto, debaixo d'água só elas sabem do esforço que estão tendo que fazer. Só elas sabem a dor nas pernas que estão sentindo ou o pulmão que está implorando por mais fôlego. O público não tem nada ver com isso. Eles querem beleza!

Com os comissários é parecido. Devemos sempre estar sorrindo e distribuindo gentileza. Não importa se tenho problemas pessoais para resolver, se meus dedos estão com calos por causa do sapato, ou se minha mão está estourada de tanto puxar trolleys e enfiar a mão em sacos de gelo. Os passageiros nada têm a ver com isso. Eles querem nos ver impecáveis e perfeitos.

Eu acho que o importante é saber reconhecer os pontos positivos e negativos da profissão. A partir deste momento, você consegue enxergar se realmente vale a pena estar naquele lugar fazendo aquilo. É muito difícil. Creio que tenho visto isso cada vez mais.

Minha vida está uma loucura, mesmo quando quero chorar tenho que estar sorrindo, nem sempre é bom pernoitar em Salvador, não é legal acordar 2 da manhã para trabalhar e nem tomar café na hora do almoço. Mas ainda sim tem tanta coisa incrível que estou aprendendo, vendo, fazendo e descobrindo...Tenho certeza que gosto do que faço e estou muito feliz com minha profissão - sem deslumbramentos e sem falta de censo crítico, claro!

Estou no lugar certo, sim. O show deve continuar, sempre. Não só na aviação, mas na vida.

domingo, 18 de setembro de 2011

A RESERVA


Segundo regulamentação, reserva é o período de tempo em que o aeronauta permanece por determinação do empregador, em local de trabalho a sua disposição - por no máximo seis horas.

Simplificando bastante o negócio todo, reserva é quando ficamos sentados no DO (Despacho Operacional) da empresa, rezando ou não para ser acionado. É literalmente sair de casa sem rumo. É você não saber se vai passar frio em Porto Alegre ou enfrentar o calorzão de Cuiabá. Fazer reserva é você se uniformizar, preparar sua mala e ir ao aeroporto sem saber o seu destino próximo. Se é que haverá um destino.

Para quem não sabe, D.O. é um mini complexo da empresa no aeroporto, onde se encontram representantes da chefia, balcão da escala, visores informativos, sala de DOV's, televisão, computadores para apresentação e consultas, achados e perdidos de tripulantes, guarda malas, salas de briefing, cadeiras e sofás, bebedouro e banheiros. É onde os tripulantes se encontram e aguardam para iniciar um voo ou cumprir uma reserva. É movimentação de tripulantes o tempo inteiro!

Ao chegar no DO para uma reserva, a primeira coisa que faço após me apresentar no computador é procurar alguém que eu conheça. Afinal de contas você tem que fazer alguma coisa para tornar a passagem do tempo mais rápida. E nada melhor do que colocar o papo em dia com um colega de trabalho. Se não encontro alguém, meu plano B é pegar meu "kit reserva". Neste kit tenho, um livro ou revista, meu notebook e meu telefone celular. Este kit é super eficaz para fazer o tempo voar.

As reservas podem ser nos horários mais loucos. Então se você tem uma reserva das 7 da manha até 13 horas, por exemplo, encontre logo um cantinho discreto para sentar porque pode ser que você caia no sono e tire uma soneca. rs E nada melhor do que a discrição.

O desejo ou não de ser acionado depende de vários motivos. Se naquele dia estou muito cansado porque fiz um vôo de seis dias na semana anterior, é fato que vou rezar para não ser acionado. Se minha escala está muito folgada certamente meu desejo será de voar. Ou se daqui a dois dias farei um vôo maravilhoso, é certo que não vou querer ser acionado para nenhum vôo que possa eliminar esse outro.

Ficar horas no DO, as vezes sem nada para fazer a não ser esperar o que vão decidir para a sua vida naquele dia, pode ser muito entediante. Você dorme, conversa, come, lê, dorme, ouve música, vê televisão, conversa mais um pouco, dorme de novo, organiza seus papeis, desorganiza para organizar de novo...o tempo as vezes simplesmente não passa.rs Por isso o próprio fato de fazer reserva já deixa o comissário louco para querer voar o mais rápido possível.

Quando ouve-se um sinal sonoro seguido da frase "Por gentileza, comissário.....comparecer ao balcão da escala", pode-se observar caras de alívio (ufa! não sou eu!), ou caras de agonia (droga, não foi dessa vez!). Ou então comissário "zuando" o outro por ter sido acionado.

Eu quase sempre sou acionado em reserva. A maioria delas foram um baque - pois por causa delas perdi vôos bons ou compromissos. Mas assim é a vida. Já estou me acostumando com isso.

Certa vez fiquei chateado por ter sido acionado em uma reserva para um vôo de 2 dias. Perdi outro voo bom por causa disso e deixei de pernoitar em casa naquela semana. Mas acabei tendo um pernoite surpreendente e incrível em São Luís. Acabei o voo feliz da vida. O certo é não reclamar ao ser acionado. Coisas incríveis podem acontecer num futuro próximo.

Como disse em um post anterior, a vida de um comissário se resume, entre outras coisas, em esperar! E a reserva é apenas uma parte disso.

domingo, 4 de setembro de 2011

INSIGHT - O VÔO DE ONTEM


Sobrevoando do norte ao nordeste, no meio do serviço de bordo, fomos obrigados a pôr em prática o que aprendemos na academia de treinamento. Mais uma vez acontece no meu vôo.

Durante o serviço de bordo uma passageira desmaia e fica estirada nos braços do comissário. Eu, que estava do outro lado do trolley, chamei a atenção do chefe de cabine através da chamada de comissário de um dos passageiros e saí do corredor rápido para liberar a passagem. Enquanto o comissário verificava o pulso da passageira, eu solicitei a presença voluntária de um médico a bordo. SORTE! Apareceram 3!
Levamos a passageira para a galley traseira e o médico tomou a frente. Enquanto eu pegava o cilindro de oxigênio e começava a abrí-lo, outra passageira também desmaiou!

Desta vez a galley dianteira serviu de espaço para o atendimento. E usamos mais um cilindro de oxigênio, como também kit médico, sacos de enjôo, e mais a força dos braços para levantá-la.

Dois comissários ficaram na frente e os outros dois na galley traseira - sempre acompanhados dos médicos. E ainda tivemos que atender a cabine de passageiros e terminar o serviço de bordo.

Acho que o ingrediente fundamental para que tudo tenha dado certo foi a paciência da tripulação. Agimos calmamente e com seriedade, o que mostrou segurança aos outros passageiros.

Essa não foi a tripulação que mais me identifiquei, pessoalmente falando, mas durante o voo o profissionalismo corre solto. Juntos, trabalhamos muito bem.

Ao final do voo, com as passageiras já sentadas e tranquilas, tivemos a sensação de dever cumprido. Naquele momento, tivemos a oportunidade de mostrar às pessoas o porquê de estarmos ali. Um voo inesquecível.

Free Blog Counter