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sexta-feira, 1 de julho de 2011

VAI QUE...


Ser comissário, como disse em algum dos textos anteriores, é sempre deixar a mala pronta e sempre ficar preparado para viajar. Mesmo sabendo disso, resolvi deixar pré-agendado um compromisso com um grupo de amigos ao fim de um sobreaviso. (Para quem não sabe ainda no que consiste o sobreaviso: Segundo a regulamentação, é o período de tempo não excedente ao período de 12 horas, em que o aeronauta permanece em local de sua escolha, a disposição do empregador, devendo apresentar-se no aeroporto ou outro local determinado 90 minutos após receber comunicação para o inicio da nova tarefa). Ou seja, é um dia inteiro que você fica em São Paulo, sem poder fazer muita coisa, rezando ou não para o telefone não tocar.

No meu caso, como tinha planejado ir para o Rio de Janeiro no fim do sobreaviso, estava rogando para que meu telefone não tocasse. Já tinha comprado ingresso para um show, meu passe já estava impresso, estava feliz de voltar para casa e nunca tinha sido acionado num sobreaviso. Ou seja, tudo estava bem encaminhado!

Meu sobreaviso começaria ao meio dia. Às 11:59 meu telefone tocou. Eu gelei. Fui acionado para fazer uma reserva de 13:30 às 19:30. Apesar de ficar receioso com a reserva, ao mesmo tempo estava feliz porque se não fosse acionado nesta reserva, chegaria ainda mais cedo no Rio do que se estivesse de sobreaviso. De qualquer forma liguei para os amigos e os deixei em alerta para a possibilidade de eu não ir. Eu estava confiante de que não seria acionado.

Cheguei no DO às 13:15, me apresentei no sistema e peguei minhas revistas porque, afinal de contas, ficaria ali por 6 horas e tinha que me entreter com algo. Quando fui sentar no sofá, minhas pernas congelaram e meu coração bateu forte ao ouvir meu nome ecoar no alto falante. NÃO ACREDITO! O que eu mais temia aconteceu: fui acionado para um vôo de dois dias! E com um pernoite em Curitiba, onde estava um frio de rachar a pele! Não quis acreditar! Bateu uma tristeza. É claro que voar me traria mais dinheiro mas, naquele momento o que eu queria mesmo era uns abraços dos amigos.

Ter que ligar para os amigos e desmarcar tudo foi um sacrifício. "Pois é! Essa é minha vida, esse é meu mundo!", assim eu dizia para eles.

Cheguei a conclusão: NÃO MARQUE NENHUM COMPROMISSO EM DIAS DE SOBREAVISO OU RESERVA! PORQUE VAI QUE... rsrs Chegará o dia em que você será acionado e é muito ruim ter que ligar para os amigos ou familiares e desmarcar um compromisso. Traz uma sensação de decepção com você mesmo. É chato!

Ser comissário de vôo é usar sua escala de vôo como base para sua vida social. Só marque compromissos quando a escala te mostrar espaços realmente confiantes para que eles aconteçam! :)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

EXISTE VIDA FORA DO EIXO RJ-SP. SALVE A CULTURA BRASILEIRA!


Eu nasci na antiga capital do país, no cartão postal do Brasil, onde nasceu a bossa nova, onde ocorreram as principais manifestações políticas da história, a janela do país para o mundo e a segunda maior economia da nação....eu nasci no Rio de Janeiro. Eu nasci onde dizem nascer as modas. Será mesmo?

Quando comecei a voar, e isso não faz muito tempo, descobri lugares, pessoas e culturas que não pensava encontrar aqui. Como nasci numa cidade grande e sem dúvida importante para o país, cheguei a pensar que tudo com que fosse me deparar no país fora do eixo Rio-São Paulo seria secundário. Voar me trouxe uma resposta oposta. Como dizem, não é assim que a banda toca.

Me deparei com cores diferentes, sabores exóticos e com uma originalidade surpreendente. Voar por esse Brasilzão me ver ficar encantado com esse país, culturalmente falando. Os sotaques, as cores de pele, os ditados populares, os vocabulários...nossa, como nós somos diversos!

Apesar da importância econômica do eixo Rio-São Paulo, não pense que esse é o centro do país. O que nasce neste circuito nem sempre se expande para os outros estados do Brasil. E nem tudo que nasce nas ouras regiões, chega aqui. Logo não sabemos, daqui, como músicas, modas e costumes brilham por lá.

Nós, paulistas e cariocas temos que parar de achar que nos bastamos. A cultura popular, as modas e a identidade cultural do Brasil se expande por cada cantinho deste enorme país. Nada do que é produzido em nossa cultura é secundário ou menos importante. Tudo faz parte de uma grande massa, de um grande emaranhado que se chama cultura brasileira.

O camarão daquele boteco de Fortaleza é tão gostoso quanto a Lagosta do Satyricon, no Rio de Janeiro. O balanço dos Aviões do Forró é tão empolgante quanto o samba de cartola ou a batida house da The Week de São Paulo. Gosto é gosto. Não existe o muito bom ou muito ruim no que diz respeito a cultura. Se você não curte, respeite. Isso tudo aqui é Brasil! E essas diferenças todas, essas coisas todas diferentes e misturadas são fascinantes!

Tenho aprendido muito a gostar do que é Brasil - e se não curto algo, respeito e reconheço aquilo como parte minha também, da identidade do país onde moro, trabalho, sobrevoo e desvendo, cada vez mais! É muito bom! É uma delícia!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A TRIPULAÇÃO PERFEITA.


Depois de aproveitar meus 3 dias de folga curando uma amidalite (ficar de cama durante as folgas é terrível!:( rsrs), me sinto disposto a tirar a poeira do meu blog e escrever. Minha cabeça me enchendo de idéias, meus dedos coçando para escrever e eu não conseguia sair da UTI do meu quarto! rsrs

Comissários DEVEM manter a imunidade alta! Campanha "Tome Redoxon Zinco sempre e voe protegido!" deve ser feita já! rs

***** A TRIPULAÇÃO PERFEITA *****

A tripulação perfeita é aquela que já no DO você consegue identificar que vai voar com você. É um magnetismo instantâneo! Fazer o "cara-crachá" para procurar sua tripulação não é preciso quando sua intuição te mostra que aqueles farão parte de seu time campeão.

A tripulação perfeita é aquela que todos apertam sua mão com vontade e soltam um sorrisão receptivo de cumplicidade.

É aquela em que a chefe de cabine já vai falando com você como se te conhecesse há muito tempo e vai te dando espaço para fazer o seu trabalho como você acha adequado, claro, dentro dos padrões de vôo.

A tripulação perfeita é aquela também, em que o comandante na sala de briefing já vai meio que deixando de lado grandes formalidades e usa a hierarquia que lhe compete apenas para meros procedimentos. E ele nos deixa a vontade para falar e se aproxima mais da cabine, com muito respeito e amizade.

Tripulação perfeita é aquela que, ao caminhar no aeroporto junta, parece iluminar os portões de embarque. Todos olham! Parece time entrando em campo em final de Copa do Mundo. rs É bonito de ver!

O Crew perfeito é aquele que, ao entrar no avião, você pode ter certeza que todo mundo vai ajudar todo mundo e regras de funções são apenas para nortear o serviço. No fim das contas todos fazem tudo, na medida em que lhe é cabível.

Tripulação perfeita é aquela que traz tanta paz ao vôo que acaba refletindo no serviço aos passageiros que, logo, mostram satisfação com o nosso trabalho. Parece que tudo dá certo - aliás, tudo dá certo!

Tripulação perfeita é aquela que cada um tem seu tempo e espaço para trabalhar, descansar e comer. Também é aquela que gosta de conversar, trocar experiências e informações da maneira mais fraternal possível. É aquela que te faz rir muito na galley traseira com histórias de vôo e de vida. Como eu me divirto com essas histórias!

O Crew perfeito é aquele que se junta, parece que por afinidade, para sair nos pernoites para comer, passear, ir na feirinha ou apenas para tomar um sorvete de tapioca. E aquela que se junta toda no café da manhã para falar de: Aviação!

A equipe perfeita é aquela que te pergunta se você dormiu bem na noite anterior e coloca o papo em dia na vã de retorno ao aeroporto. É aquela que faz você sentir que passou apenas um dia quando na verdade já passaram 6. E você nem percebeu como o tempo passou rápido!

A tripulação perfeita é a equipe dos sonhos, o grupo mais esperado, quase uma família.

A tripulação perfeita é aquela que você se despede dando um abraço apertado e rogando para que todos, um dia, se cruzem novamente - e pode ter certeza que depois desses dias você sente quase um vazio. rs Pode crer que você vai sempre comparar suas outras tripulações com esta. Afinal de contas o que você mais deseja é uma igualzinha aquela que te fez ficar tão satisfeito e feliz com o seu trabalho!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

NEM TUDO SÃO FLORES - MAS PARE DE CHIAR!



Não é sempre que um comissário de vôo vai achar quer voar é maravilhoso. Ou vocês acham que é maravilhoso voar numa tarde ensolarada de domingo enquanto toda a sua família está num churrasco se divertindo? Ninguém vai achar maravilhoso voar na noite de natal, né? Pois é, meu pai sempre me disse que não há bônus sem ônus. E desde que eu entrei para o mercado de trabalho em 2005, sinto que isso é a mais pura verdade.

Imagina só: Depois de fazer Guarulhos-Recife e Recife-Fortaleza, você já cansado percebe que ainda falta mais uma perna, Fortaleza-Belém. Mais tarde você também se dá conta que já é uma hora da manhã e você ainda nem chegou no hotel! É claro que você, mesmo que por alguns minutos apenas, não vai achar que ser comissário é a profissão mais perfeita do mundo.

Se você marca um compromisso numa certa data e sua escala muda inteirinha para aquela semana, você certamente vai reclamar! Se você tem que receber comissaria e limpeza na galley traseira em meio a uma chuva de vento, isso também não vai ser maravilhoso!
E quando o ralo da banheira do hotel entope ou não há conexão de internet no quarto? rs Não tem como não reclamar!

Aí chegamos a uma característica CLÁSSICA do comissário de vôo: Ser "reclamão"! O comissário parece ser treinado para reclamar de tudo! rs No seu primeiro dia você vai se perguntar porque seus colegas de trabalho reclamam tanto e seguramente vai afirmar para si que nunca será daquele jeito. Entretanto, uma semana depois você vai se flagrar reclamando de alguma coisa, por menor que ela seja. É um caminho sem volta! rs Eu mesmo já voei com colegas que eu achava serem a própria Julie Andrews em A Noviça Rebelde, de tão feliz - mas que depois do terceiro dia em uma chave de 6 dias de vôo já estavam reclamando. rs

E a escala??? Não existe traslado hotel-aeroporto onde não se fale de escala. Ou melhor, onde não se reclame de escala. É o assunto mais tradicional de reclamações da história. Imagino a própria Ellen Church reclamando de sua escala! Se o comissário voa pouco ele reclama. Se voa muito, reclama também. Se folga pouco, reclama. Se folga muito, reclama.

Fora quando reclamam do hotel, do café da manhã, da vã, da comida da comissaria (às vezes essa não tem como não reclamar). Tenho a impressão que ficamos muitas vezes exigentes demais. Ou seja, creio em minha humilde opinião que muitas das nossas reclamações não são plausíveis. Reclamamos de coisas bobas. E tem comissário que acaba ficando estressado por coisas pequenas.

O que estou tentando fazer - e parece que está funcionando: Não me privo de reclamar de certas coisas, até porque se não reclamasse não seria comissário. rs Mas tento sempre parar pra pensar se aquilo faz sentido. É claro que vou reclamar se a comida da tripulação estiver feia. Até porque a gente merece algo melhor sim! Agora se eu tenho uma cama boa, um chuveiro de água quente e um café bacana porque vou reclamar da esteira que não funciona direito??? Fala sério, né?
A gente tem que parar pra pensar antes de chiar de alguma coisa! Aquilo pode não fazer muito sentido!

PS. Como eu ri escrevendo esse texto! É exatamente assim! Tá aí, outra maneira de sair desse vício de comissário reclamão é RIR! RIR MUITO! rsrsrsrs

segunda-feira, 30 de maio de 2011

DIA DO COMISSÁRIO?



Hoje comemora-se o dia do Comissário de Vôo. Acho bacana termos um dia só nosso para celebrar. Quer dizer, não só nosso mas do Pescador e do Espírito Santo também que, juntos conosco, comemoram esta data.

Eu particularmente não me ligo muito nisso. Quem disse que seria dia 31 de maio nosso dia e por quais razões? Eu sinceramente não sei. Prefiro acreditar que o "dia do comissário" acontece do dia 01 de janeiro a 31 de dezembro. Aí no caso seriam "Os Dias dos Comissários" (Melhor assim!)

Não sei quanto ao médico, publicitário, advogado ou secretária - mas sei que posso comemorar todos os dias o meu ofício. Gosto da idéia de celebrar cada vez que ponho meus pés no solo novamente depois de um vôo seguro e tranqüilo. Aprecio a idéia de comemorar cada vez que atravesso os aeroportos do país sob olhares de admiração das pessoas (Nem sempre! rs).

Também curto pensar que é meu cada dia que consigo "dobrar" um cliente difícil e fazê-lo satisfeito. Sinto como meu aquele dia que pensava que não agüentaria de tanto cansaço e dor no corpo mas que por fim deu tudo certo. Vejo como meu os dias que tenho que ultrapassar meus próprios limites e atravessar as dificuldades que, como toda outra, a minha profissão me traz. Também marco como meu cada dia que nossa regulamentação é respeitada e nossos direitos são reconhecidos.


Defendo a idéia de que nosso dia é celebrado no nosso cotidiano. Não acho que seja necessário haver datas para comemorar o que somos - a não ser que seja um feriado que nos dê algum tipo de benefício trabalhista, é claro. :)))

Comemoremos então, amigos comissários, TODOS OS DIAS!

Próximo Post: Nem tudo são flores!

terça-feira, 24 de maio de 2011

O VÔO E SUAS HISTÓRIAS


Acho que nunca privei minha imaginação de viajar longe. Às vezes gosto de criar histórias em minha cabeça e fico entretido com o que ela produz.

Nos vôos mais curtos fica difícil observar minuciosamente os passageiros. É tudo tão rápido que basta um espirro e você já fechou uma ponte aérea. Entretanto, nos vôos mais longos gosto de prestar bastante atenção nas pessoas que estão a bordo.

Gosto de imaginar possíveis histórias que justifiquem as viagens de cada uma daquelas pessoas que estão ali, sob meu olhar. Se possível, consigo extrair histórias reais. Se não, viajo em possibilidades.

Gosto de observar aqueles que viajam de avião pela primeira vez. Imagino em quantas parcelas aquela passagem foi dividida e como aquele momento é importante para aquele passageiro. Gosto de pensar na emoção e medo que eles sentem quando o motor dá força máxima para subir. Gosto de pensar na emoção que será quando essa pessoa chegar em São Paulo e encontrar familiares que não vêem há muito tempo ou se encher de expectativas para uma vida nova.

Observo as crianças que viajam desacompanhadas. Pais separados e em cidades diferentes. Como deve ser para elas? Porque será que os pais dela se separaram? Algumas me parecem a vontade e experientes na arte de viajar sozinhas. Outras me passam a sensação de medo e desconfiança. Nunca imaginei viajar sozinho quando era criança. Imagino o pai aflito no desembarque do aeroporto esperando o filho ou filha. Há quanto tempo que eles não se vêem? E se ele tiver outra família? Às vezes as crianças não me parecem muito felizes.

Vejo os executivos. Aquelas expressões de cansaço me deixa exausto. Sempre com os laptops e/ou blackberrys a postos. Imagino que tenha sido um dia de intermináveis reuniões e que eles não vêem a hora de chegar em casa, ver a família e tomar um banho quente. Tento ver pelas suas reações se o dia foi produtivo ou não. Gosto de pensar no quanto alguns estudaram para estarem ali. Mesmo que cansados, satisfeitos.

Ao transportar pacientes, gosto de imaginar a esperança de cura dentro daquela pessoa. Ela está indo a caminho de algum hospital realizar um tratamento ou de repente atrás de um doador. O mais interessante é que dos poucos que transportei, nenhum me passou sofrimento. Muito pelo contrário, eles me passaram confiança e amor.

Nos vôos de conexão internacional vejo aquelas famílias que vieram dos Estados Unidos cheias de sacolas da dutty free. Gosto de pensar nos presentes dentro daqueles sacos. Para onde estes presentes irão? Para as mãos de quem? Será que a pessoa vai gostar? Gosto de imaginar as astronômicas faturas de cartão de crédito que esses passageiros terão que pagar.

Vejo as expressões de passageiros que por algum motivo estavam há horas esperando no aeroporto. Observo o alívio de finalmente estarem indo para casa. Tento imaginar o que fez aquela pessoa esperar e há quantos dias ela não vai para casa.

É fácil também perceber casais em lua de mel. As alianças brilhando, a roupa novinha comprada especialmente para a viagem, aquela paixão de início, a felicidade de uma nova vida. Gosto de pensar no destino, no hotel que ficarão e nas fotos que eles vão tirar.

Ao transportar famosos, imagino que aquela deve ser a centésima viagem do ano. Isso explica a vontade de ficar no cantinho, descansando e sem ser percebido. É um momento de intimidade, mesmo fora de casa. Ali eles são como todos os outros. Aliás, eles são como todos os outros. Mas dentro do avião, para mim, isso se passa mais real do que nunca.

Gosto de pensar em cada membro da tripulação e como o caminho de cada um foi traçado até chegar ali. Gosto de pensar no que aqueles colegas de trabalho deixaram para trás para estarem ali. Imagino quais são as pessoas que dependem daquele tripulante e quais são seus planos para o futuro.

Gosto de me imaginar dentro da aeronave observando essas pessoas, fotografando momentos, ouvindo histórias, criando leques de possibilidades e viajando em cotidianos diversos. Tenho gostado muito do que faço. Estar no meio do caminho de todas essas pessoas me faz sentir bem...talvez até mais...faz sentir-me, mesmo que por poucas horas, essencial.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

BICHO SOLTO E DESPRENDIDO.


Sempre me senti um cidadão do mundo. Sempre pronto a explorar lugares, conhecer pessoas e vivenciar experiências. Me sinto e sou definitivamente um bicho solto. rs Essa minha característica tem me ajudado muito no dia a dia da minha profissão. O fato de ter que se deslocar para vários lugares do país, dormir em várias camas diferentes, ver pessoas sempre diferentes das que eu vi antes não me impactou. Muito pelo contrário! Só ratificou esta parte da minha personalidade.

Quando eu chego em uma cidade, tenho vontade de explorá-la. Ou até mesmo vontade de ficar hibernado no hotel. Considera-se também o fato de a tripulação estar disposta ou não a fazer algo naquela cidade - até porque nem sempre é bom andar sozinho por aí. Mas e eu? Bicho solto do jeito que sou acabo fazendo as coisas sozinho quando o grupo não quer. Onde quero chegar: Para ser comissário é vital você ter uma certa individualidade e desprendimento com o mundo. Essas duas vias caminham juntas.

Existem os momentos em que teremos que ficar sozinhos no quarto do hotel porque está chovendo , por exemplo. Terão vezes que ninguém irá na feirinha com você. Haverão vezes que você se sentirá sozinho e provavelmente sentirá falta de casa. Mas se você souber trabalhar a sua individualidade, conseguirá tirar proveito do seu dia. Você fará coisas que, se estivesse em grupo,não conseguiria realizar.

Agora, por exemplo, estou de repouso em São Luís. O tempo está ruim e a tripulação está nos seus respectivos quartos. Aproveito este tempo sozinho para ler, escrever, pagar contas, conversar com quem ficou e arrumar a mala. Antes de entrar na empresa, fiquei parado alguns meses, e este tempo me fez ficar totalmente dependente das pessoas, sentimentalmente falando. Não conseguia ficar sozinho - tinha perdido um pouco minha individualidade. Agora que voltei a ativa, todo esse meu "desgarramento" com o mundo voltou. Tiro prazer dos meus momentos sozinho e curto eu mesmo da melhor maneira possível.

Se quero dar uma volta, correr na esteira ou comer alguma coisa, sempre participo às pessoas. Mas se eles têm outros planos individuais, não deixarei de fazer o que tinha planejado. Às vezes isso acontece, e é bastante normal.

É até legal também você virar craque em hotéis. Saber apreciar uma boa cama, um bom chuveiro, aquele lençol lá de Manaus que é maravilhosamente macio....rsrs Quando o quarto é bom e a vista melhor ainda, o prazer de ficar sozinho é ainda maior! :) Quando tiro proveito dos pernoites ou dos poucos inativos que tenho, falta até hora para fazer tudo que tinha planejado. Muitas vezes, saio com a tripulação e os planos individuais caem por terra - mas isso também é maravilhoso!

De forma geral, o que mais gosto numa viagem e que sempre me fascinou é o "voltar para casa". Eu volto com um olhar diferente da minha cidade. Enxergo características maravilhosas nela, que nunca tinha percebido. Como também adquiro um olhar mais crítico das mazelas dela.
Como comissário, esse "voltar para casa" se repete freneticamente e mesmo sendo assim tão solto no mundo, fico cada vez mais apaixonado pela minha cidade. Acho deliciosa a sensação de voltar para casa. Para sentir isso tenho que viajar e minha profissão tem me proporcionado este prazer pelo menos uma vez por semana! Que incrível! Isso traz um espírito de liberdade enorme dentro de mim!

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